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Igreja de Santo Amaro, Beja
Com a inauguração do Núcleo Visigótico do Museu Regional de Beja na Igreja de Santo Amaro concretizou-se uma aspiração de especialistas, estudiosos e de muitos bejenses. Aqui se pode admirar um conjunto de elementos ditos «visigóticos».O projecto museográfico deste núcleo recuperou o espaço interior da Igreja de Santo Amaro, um dos mais significativos de Beja, para expor a colecção visigótica do Museu de forma sistematizada, estabelecendo uma integração entre o conjunto das peças e os vestígios de uma antiga basílica paleocristã. O edifícioA Igreja de Santo Amaro assenta sobre uma necrópole romana, paleocristã e medieval que se estenderia, fora das portas da cidade, ao longo da via para o Norte. Teria havido neste local uma ou mais edificações anteriores; porém, o que hoje nos resta é uma igreja construída de raiz em finais do século XV princípios do XVI. Em meados do século XVI são construídas as duas capelas ainda hoje adossadas à colateral sul e, em finais dessa centúria ou inícios da seguinte, é acrescida à colateral norte uma outra capela funerária. As obras realizadas no século XVIII modificaram profundamente a fachada ocidental, dando-lhe o aspecto que hoje ostenta. Como elementos arquitectónicos anteriores às obras quinhentistas temos a destacar as colunas que suportam as duas fiadas de arcos formeiros. Santo Amaro é um dos poucos templos conservados de arquitectura altimedieval em Portugal. Durante muito tempo foi considerada uma igreja do século V, mas mais recentemente toma forma uma datação em pleno século X, por intermédio dos moçárabes de Beja. A correcta avaliação de todo este complexo conjunto entre Visigodos e Moçárabes é ainda dificultada pelas campanhas construtivas realizadas no monumento ao longo da história, com particular destaque para a que aconteceu em finais do século XV ou, mais provavelmente, nos inícios do século XVI.
Nesta altura desenvolveu-se um programa arquitectónico, reformulando-se a fachada principal - posteriormente objecto de uma campanha barroca -, construindo-se a torre sineira, reorganizando-se o interior, com planta em três naves de quatro tramos, e refazendo-se a cabeceira, com capela-mor ladeada por dois absidíolos. Anteriormente, no reinado de Dinis I, havia-se adaptado a capela-mor a capela funerária do cavaleiro João Mendes (1329), cujo túmulo ainda se conserva no interior da igreja, e mesmo depois do século XVI o imóvel não cessou de ser transformado. DataçãoBaseando-se na feição classicizante dos capitéis das naves, foram muitos os autores que optaram por uma cronologia visigótica para o conjunto (CORREIA, 1928; VIANA, 1949; ESPANCA, 1993, p.97, entre outros). Esta posição foi determinada em função da decoração das pilastras, cujos temas geométricos e fitomórficos foram interpretados como sendo característicos da arte visigótica (HAUSCHILD, 1986, pp.161-162). As primeiras dúvidas sobre o visigotismo de Santo Amaro foram sintetizadas por Jacques Fontaine, que citou como paralelos mais próximos para a decoração dos capitéis da igreja bejense obras peninsulares do século X (FONTAINE, 1973, p.452). Já na década de 80 do século XX, os trabalhos de Carlos Alberto Ferreira de Almeida, conduziram à conclusão de que existiu, no território hoje português, uma "corrente classicizante moçárabe, com incursões pelas soluções compósitas emirais do século X" (ALMEIDA, 1986, p.119). A esta evidência, juntou-se a proposta de uma evolução na arte moçárabe ao longo dos séculos de dominação islâmica (Real, 1995), evolução historiográfica que conferiu à História da Arte da Alta Idade Média instrumentos mais rigorosos para se ultrapassar a frequente confusão entre «visigótico» e «moçárabe», como no passado as polémicas em torno de São Frutuoso de Montélios o provaram. Não restam hoje dúvidas sobre a datação a dar aos capitéis das naves: século X ou inícios do século XI, na dependência estilística do ciclo artístico emiral, mas filiando-se numa tradição classicizante que conta com outros exemplos mais ou menos contemporâneos, como a igreja de São Pedro de Lourosa ou a igualmente discutida Mesquita de Idanha-a-Velha. Como e quando se adaptaram os capitéis ao templo permanece ainda uma incógnita, tais as dúvidas que se levantam sobre o passado altimedieval do local, as campanhas da Reconquista e mesmo as transformações da época moderna. |
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