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Tróia (em frente a Setúbal)

As ruínas de Tróia compreendem uma área habitacional, um balneário, 4 zonas de enterramento, um núcleo religioso, e vários núcleos industriais. A principal actividade era a pesca, o fabrico e a exportação de conservas de peixe.

Tróia é um dos mais vergonhosos casos de desleixo por parte dos arqueólogos e da Administração pública. O contínuo abandono destas importantes ruínas tem contribuído para que estejam a desaparecer muitos vestígios importantes deste centro romano. Hoje, as ruínas são de novo visitáveis.

A Península de Tróia é uma faixa de areia na margem esquerda do estuário do Sado com cerca de 17 km de comprimento por cerca de 1, 5 km de largura. Mas na época romana, era uma ilha do delta do Sado, denominada de Ilha de Acála.

Em 1622, João Baptista Lavanha, refere o local: "onde ainda se vêm os vestígios de tanques em que se salgaram os atuns, e outros pescados, aparecem ruínas de outros edifícios de aquela cidade e delas se tiram estátuas, colunas e muitas inscripções".

Ainda no terceiro quartel do século XVIII, tiveram lugar as primeiras escavações arqueológicas por iniciativa da futura rainha D. Maria I. Nessa ocasião foram postas a descoberto as casas da chamada Rua da Princesa.

A povoação

A Tróia romana foi uma povoação construída em função da actividade conserveira, com inúmeros vestígios de cetárias, além do equipamento urbano característico dos povoados luso-romanos: área habitacional, veja páginabanhos públicos, necrópole, veja páginacolumbário, basílica de 4 naves, com frescos de inspiração paleo-cristã, que se aproximam de outros em igrejas asturianas. Existem três zonas de enterramento, e um «núcleo religioso».

Tróia constitui um dos mais interessantes centros fabris de veja páginaconserva de peixe do Império Romano. Construído nos inícios do séc. I n.E., manteve-se em plena actividade até ao séc. IV n.E., a partir do qual entrou em decadência.

Estendendo-se outrora por uma faixa de quase 2 km, este complexo conserveiro mantém ainda uma apreciável densidade de construções, testemunho da intensa actividade industrial e comercial que nele se desenrolava.

A origem do nome "Tróia" ainda hoje é mistério. A primeira referência a este topónimo data do séc. XVI, e poderá dever-se, tão-somente, à circunstância dos espíritos cultos da época se sentirem tentados a assemelhar estas ruínas à Tróia homérica, aliás, de latitude, cronologia e natureza bem diversas.

Ruínas de edifícios de habitação, de r/c. e r/c. e 1º andar, formando quarteirões separados por ruelas, algumas luxuosas com mosaicos em opus vermiculatum, estuques com pintura a fresco; veja páginabalneário (com vestíbulo, frigidarium, tepidarium e caldarium sobre hipocaustum, piscinas e sala de ginástica), vestígios de mosaicos em opus vermiculatum numa das piscinas.

A relação com Cetóbriga
Conservas de peixe

Foi encontrado um grande número de cetárias - tanques de salga de peixe rectangulares e quadrangulares, contíguos, forrados em "opus signinum" e sem comunicação, com poços de boca circular nas proximidades, para fornecer àgua para a salmoura.

A concorrência destes testemunhos de diferente natureza, numa zona praticamente isolada, cuja via de acesso principal seria a marítima ou fluvial, é, já por si suficientemente elucidativa da importância que este centro adquiriu na Antiguidade.

Embora dependendo do exterior para a obtenção de vasilhame, de produtos agrícolas e pecuários, criou as estruturas suficientes para assegurar a presença no local de uma população activa responsável pela manutenção desta indústria durante um período de, pelo menos, quatro séculos.

Em Tróia construiram-se necrópoles de tipologia diversa: sepulturas sobrepostas numa altura de 7 m (margem da Caldeira), sepultura de incineração de Galla, mausoléu de planta quadrada com nichos abertos nas paredes, para guardar urnas cinerárias, sepulturas de superestrutura quadrangular (junto à basílica paleo-cristã - com 2 partes distintas: a nave (22,5 x 13 m.), com vestígios de 8 bases de colunas e de arranques de arcadas transversais, a ábside, a O., com pavimento mais elevado, paredes estucadas e pintadas a fresco, com marmoreados, elementos geométricos e emblemáticos.

Utilização Inicial: Residencial, industrial. Época de Construção: Séc. 1 / 6

Cronologia: Séc. 1 - início da ocupação, que se prolongou até inícios do séc. 6, por povo luso-romano cuja principal actividade era a pesca, o fabrico e a exportação de conservas de peixe. A submersão de parte da povoação terá sido motivada por um fenómeno de transgressão marinha (fenómeno inicial de afundamento seguido de levantamento já com sedimentos), associado a vagas sísmicas e à acção erosiva do Sado (SILVA, 1966).

Tipologia: Romano, paleo-cristão.

Características Particulares: O columbário (sepultura familiar) é um exemplar raro em território português. Junto à basílica existia uma construção circular, a N. da actual capela, provavelmente um baptistério, entretanto desaparecido, descrito por Marques da Costa (1933), que ainda viu um "crismon" pintado nas paredes da basílica, por ele interpretada apenas como uma capela sepulcral.

Necrópole - as prácticas de enterramento em Tróia permitem acompanhar um período temporal que vai desde o século I d. C ao século VI d.C e analisar a evolução dessas prácticas e atitutdes mentais perante a morte.

Um primeiro momento leva-nos á práctica de inceneração (queima dos corpos), comum a todos os povo indo-europeus e naqual incluem os romanos e as populações indígenas da península. Esta práctica está representada pela sepultura de Galla (datada do século I d. C), um monumento epigráfico que se encontra no veja páginaMuseu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setubal. Nestas sepulturas as cinzas estavam acompanhadas por uma taça de bronze, um púcaro de cerâmica, dois ungentários em vidro, duas lucernas do século I d.C. e instrumentos de toilette e de lavoures em osso.

A partir do século II d.C. começou a impor-se lentamente a práctica da inumação como consequência da crescente influência das religiões oriundas da Pérsia do Mediterrâneo Oriental.

Está neste caso o fragmento do sarcófago, descoberto sob a basílica paeocristã, onde está esculpida uma cena de transporte do morto em carro de bois para um espaço delimitado por uma rede e defendido por um animal feroz. Datado de finais do século II d. C., ou do século III d. C., o sarcófago, pela sua qualidade artística reflecte a adesão dos grupos sociais mais abastados à nova religião.

Mausoléu

Próprio do período com domínio da práctica da inumação é o mausoléu. Construído numa época em que o complexo industrial já estaria em regressão e portanto com fábricas abandonadas, o mausoléu, de planta rectangular e paredes reforçadas por contrafortes, tem o pavimento completamente preenchido por sepulturas de inumação e nichos nas paredes onde poderiam ter sido depositadas urnas.

Nas traseiras e na frente do mausoléu encontram-se igualmente espaços funerários. Não possuem cronologias seguras para estas zonas funerárias. É possível que tivessem sido utilizados numa época em que o complexo industrial já estava em acentuado estado de abandono.

No espaço das traseiras foram utilizadas como urnas, ânforas produzidas no final do Império e no espaço da frente do mausoléu utilizaram-se os próprios tanques para os enterramentos.

Bibliografia

APOLLINARIO, Maximiano, Estudos sobre Tróia de Setúbal, in O Arqueólogo Português, vol. 3, Lisboa, 1897

veja páginaAntónio Inácio Marques da Costa, Estudos sobre algumas estações da época luso-romana nos arredores de Setúbal, in O Arqueólogo Português, vol. 26, Lisboa, 1924, vol. 27, Lisboa, 1929; vol. 29, Lisboa, 1933

Silva, Carlos Tavares da, CABRITA, Mateus Gonçalves, O problema da destruição da povoação romana de Tróia de Setúbal, in Revista de Guimarães, vol. 76, Guimarães, 1966

Almaida, Fernando de, MATOS, José Luís de, Frescos da Capela Visigótica de Tróia, Setúbal", in Actas do 2º Congresso Nacional de Arqueologia, vol. 2, Coimbra, 1971;

veja páginaAlarcão, Jorge, Portugal romano, Lisboa, 1974

Soares, Joaquina, Estação romana de Tróia, Grândola, 1980

Almeida, Carlos Alberto Ferreira de, Arte paleo-cristã da época das invasões, in História da Arte, vol. 2, Lisboa, 1986.

Intervenção realizada

Séc. 18, 2ª metade - escavações patrocinadas por D. Maria I; 1850 - a Sociedade Arqueológica Lusitana procede a explorações em casas de habitação

1924 / 1933 - escavações dirigidas por Marques da Costa; 1948 / 1955 - Dr. Leite de Vasconcelos

1963 - início dos trabalhos arqueológicos dirigidos por Manuel Heleno e Dr. D. Fernando de Almeida

1976 - assentamento de uma estrutura metálica para defender os frescos da capela paleo-cristã. As Ruínas de Tróia por António Cavaleiro Paixão

Localização

Setúbal, Grândola, Carvalhal

Acesso: Via Setúbal, por barco (ferry-boat),
ou via Alcácer do Sal, Grândola ou Santiago do Cacém.

Protecção: MN, Dec. 16-06-1910, DG 136 de 23 Junho 1910, ZEP, DG 155 de 02 Julho 1968. Enquadramento: Rural, borda d'água.

Na parte N. da península de Tróia do lado do estuário, na margem esquerda do Rio Sado, numa restinga delimitando pelo E. um pequeno esteiro em forma de fenda, a Lagoa.

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Glossário

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