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Francisco Martins Sarmento

Quando, em 1875, Martins Sarmento iniciou o estudo da Citânia de Briteiros, o universo dos castros era uma incógnita e a arqueologia portuguesa dava os primeiros passos, limitada ao sul do país, onde os elementos da Comissão Geológica — Pereira da Costa, Carlos Ribeiro e Nery Delgado — se dedicavam a escavar grutas, concheiros e dólmenes.

Existia, no norte de Portugal uma tradição erudita, sustentada por antiquários, interessados em desvendar os enigmas encerrados nas ruínas das “cidades mortas” e em registar os achados, designadamente as epigrafes, que ocorriam, aqui e acolá, de quando em quando.

Esse saber mantinha-se na esfera literária. As imagens eram raras, embora deva recordar-se os excelentes desenhos que ilustram a obra impressa de Jerónimo Contador de Argote (primeira metade do século XVIII), ou os manuscritos de Távora e Abreu ou, ainda, as Memórias de Anciães elaboradas pelos reverendos J0ã0 Pinto de Morais e A. de S. Pinto Magalhães.

Os desenhos das pinturas pré-históricas do Cachão da Rapa ou dos penedos epigrafados do santuário romano de Panóias, constituem alguns dos primeiros esboços de um registo distinto da escrita, em matéria de arqueologia. Este registo, o desenho, irá manter-se e generalizar-se, ao longo da história da arqueologia, sendo hoje uma preciosa e quotidiana ferramenta, seja em campo seja no gabinete.

Nas revistas científicas as estampas com figuras são uma parte indispensável de qualquer artigo ou comunicação. No entanto, para os meios técnicos da época — séculos XVIII e XIX — os desenhos e as gravuras resultantes eram um processo oneroso e lento.

Na segunda metade do século XIX, uma nova modalidade de registo, é aplicada em trabalhos arqueológicos: a fotografia. No nosso país, Martins Sarmento é um dos pioneiros na utilização deste novo método de registo, a que recorre, quer para gravar as imagens das escavações e das ruínas exumadas, quer para fixar os objectos retirados do subsolo.

Aliás a divulgação da Citânia de Briteiros, como porta de acesso ao conhecimento da Idade do Ferro e da Romanização do Noroeste Peninsular, está intimamente associada à fotografia. Na verdade, será através de dois álbuns fotográficos, que o arqueólogo vimaranense vai divulgar os resultados das suas pesquisas.

Os álbuns, acompanhados por uma breve introdução e devidamente legendados, foram remetidos ao Instituto de Coimbra, à Sociedade de Geografia de Lisboa e à Real Associação dos Architectos e Archeologos Portugueses. Nas sessões destas academias, os eruditos folheiam as páginas dos álbuns e deparam com os sinais de um novo universo científico, um olhar sobre o passado: imponentes panos de muralhas, ruínas de casas circulares e rectangulares erguidas em excelente aparelho granítico, pedras lavradas com misteriosas decorações, objectos de bronze e ferro, fragmentos de olaria.

As imagens operadas, reproduzidas e legendadas por Francisco Martins Sarmento não ilustravam um discurso explicativo das ruínas postas a descoberto no Monte de Briteiros e no Castro de Sabroso. As fotografias formavam um feixe de perguntas. Para responder a esse conjunto de interrogações organizou-se no ano de 1887, em Guimarães, a primeira reunião científica de arqueologia, celebrada em Portugal. Só a partir de então se começou a organizar um discurso sobre o mundo dos castros, conhecimento que se irá construindo progressivamente ao longo de décadas. Entretanto, as fotografias produzidas por Martins Sarmento tiveram longa vida e difundiram-se pela Europa. Em 1882 figuravam entre as estampas do volume das Actas da IX Sessão do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas, realizado em Lisboa em 1880.

Em 1888 eram impressas num volume que será um ponto de referência obrigatório no conhecimento europeu sobre o passado longínquo: o Manual de Pré-História de Émile Cartailhac, um dos estrangeiros que participara na excursão à Citânia de Briteiros, realizada no âmbito do mencionado Congresso.

As fotografias da autoria de Martins Sarmento, ora reproduzidas de novo, mais de um século depois de terem sido operadas, estiveram nas raízes da formação da arqueologia científica em Portugal.

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